quarta-feira, janeiro 02, 2013

Imperdível?


O que é imperdível para você? A festa da Gucci com James Franco? O coquetel com desfile? O show da Madonna? O brunch de Natal do salão de beleza? Em muitos momentos da vida já respondi sim a todos esses exemplos. Adoro sair, é verdade, mas há alguns anos o “preciso ir” deu lugar ao “preciso descansar urgentemente”. Sinais dos tempo, seleção natural. Chame do que quiser – o fato aqui é: nada é imperdível e você só vai se dar conta disso com o tempo.
Depois de quase quatro anos trabalhando no site Glamurama, uma das lições que carrego para a vida toda foi um lembrete que Joyce Pascowitch me deu quando comecei a trabalhar com ela. “Matheus, nada é imperdível nessa vida. Se está acontecendo hoje, vai acontecer novamente. Ou amanhã, semana que vem, daqui quatro anos”. Concordo plenamente, e quase que de imediato essa palavra foi abolida do meu vocabulário.
Imediatistas de plantão, ser rápido e absorver o maior número de informações é espetacular, mas convenhamos que nem toda informação deve ser absorvida – ainda mais nas loucuras que escrevem em portais de notícias por aí.
O “x” desse texto é: quantas pessoas ou coisas foram negligenciadas por você achar que algo imperdível era melhor que sua família e amigos? Em 2012 perdi minhas duas avós, que moravam no interior, e ano passado fui apenas duas vezes visitá-las. Hoje eu sei que os 450 km de distância, ou as seis horas dentro de um ônibus – tempo gasto para ir de São Paulo até São José do Rio Preto – não era absolutamente nada comparado a dor e o que ambas passaram antes de falecer. Um egoísmo puro, sempre camuflado com a desculpa da festa de aniversário de fulano ou open house de sei lá quem.
Elas não vão voltar, e o aniversário do cara XYZ vai acontecer em 2013, e se a pessoa que se mudou resolver comprar outra casa, um novo open house será feito – e o imperdível fica onde nessa história? Imperdível era o pudim de leite que a vó Eunice fazia, ou o frango assado na panela de pressão... E o biscoito de polvilho quentinho para acompanhar o café? Nem a porção de torresmo e ovos caipira que a vó Nair preparava vai acontecer novamente.  Quando eu dizia que estava chegando, ela preparava coxinha - só de massa, sem recheio - que fazia escondido do meu pai, porque sabia que eu era nojento demais e odiava cebola/tomate. Ela fazia, fez por anos e nunca agradeci.
Não posso dizer nunca, porque amava ambas e elas sabiam disso – mas a minha ausência sem motivo é algo que não consigo entender – excesso de trabalho os plantões que precisava fazer e as horas dedicadas aos trabalhos da faculdade. Crescemos, nossas prioridades mudam, e cabe a nós reordenarmos essa lista – da forma mais incrível possível, deixando na frente de tudo e todos, eventos/coisas imperdíveis ou pessoas que realmente importam.
Minha mãe me ligou quando minha avó faleceu, no último dia 29. Estava triste e desesperada, mas me disse algo que não vou esquecer tão cedo. “Estou chorando de saudade filho, e não de remorso”. 
E eu também chorei, e mesmo sem direito, de saudade.

Matheus Evangelista