sexta-feira, julho 19, 2013

A - B


Entrevistei um especialista em novas doenças, daquelas que surgem da rapidez de um sms ou da falta de um celular, a loucura da internet e por aí vai. Ele disse, se referindo a um tema específico, que a pessoa x precisa vivenciar A para sentir B. O papo que tivemos era para tratar sobre doenças e síndromes modernas, coisas bestas, mas que estão tomando proporções extravagantes. Não seria um exagero dizer que nós, cada um do jeito que achar melhor, sofre de algo parecido. 
O exemplo do A, B e afins, serve para ilustrar uma pessoa que precisa estar em tudo. Ela vai para se sentir diferente. Ela faz para... Mas o que acontece quando o ‘sentir’ e o ‘ter’ já não são suficientes, ou simplesmente perderam a graça? É como se houvesse um esgotamento de sentidos e tudo que poderia realizar, ter feito, visto ou vivido já tenha acontecido. Estar à frente, mas em frente ao que e de quem? 
Fiquei pensando nisso. Em todos os eventos que vou, nas festas, nos encontros e sabe-se lá mais o que. Faz tempo que penso em não sair de sexta-feira, e quando ela chega, eu me pego na casa de alguém tomando um drink ou em alguma festa babaca. Fui porque quis e ninguém me obrigou. As consequências da noite (boas ou ruins) serão o meu B. Escutando Fleetwood Mac, enviando e-mails sem parar e com duas mil preocupações na cabeça, concluo que os Bs que estou colecionando não são tão satisfatórios – há algum tempo. 
Não consigo olhar para a tela do meu celular – tenho medo que seja alguém com mais um problema para resolver. Por isso ele passa o dia desligado. Não escuto recados na caixa de mensagem, porque não quero ouvir o que não preciso. Não retorno mais SMS, não visualizo mais as mensagens no what’s APP e tirei até meus contatos diretos das assinaturas dos três e-mails que uso diariamente. Não quero ser encontrado, e caso eu seja, prefiro por e-mail.
Além dessa enxurrada de informações, ainda é preciso administrar egos, humor alheio e todo tipo de sentimento terceirizado que nos afeta diariamente, resultando em energias negativas e baixo astral, mas talvez esse seja o meu extrato dos Bs que encontrei por aí, ou seja, a culpa é minha. Nesse campo, há também um desnível entre amizades e afinidades - uns querem x, outros y. E tudo se agrava quando você deixa de fazer parte da mesma linha de raciocínio, afinal, até quando seremos obrigados a concordar com tudo , ouvir absurdos e ver atitudes contrárias aos nossos princípios?
Precisamos vivenciar? Sim. Tudo? Não. Parece que meu filtro quebrou e eu deixei de questionar o que quero e o que não quero. As pessoas que sempre achei que estariam ao meu lado, simplesmente foram embora. O “B” que sentimos juntos não funcionou. Já aquelas pessoas que nunca esperamos nada, simplesmente aparecem com um sorriso no rosto, mostrando que vivenciar “A”, seja por um momento sequer, ainda é melhor que o dia seguinte. Só nos resta memorizar esse recado que a vida insiste em nos entregar aos pedaços.
Matheus Evangelista