terça-feira, setembro 15, 2015

Amor ou improviso?


Em 2006, quase dez anos atrás, assisti no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, minha cidade natal, a peça “A Falta que nos move ou todas as histórias são Ficção”, da Cia Vértice de Teatro, do Rio de Janeiro. Quem dirige a peça é Christiane Jatahy, que anos depois transformou tudo em filme e se lançou oficialmente no mundo do cinema.

O título, vejam só, é baseado em uma frase do filósofo polonês Arthur Schopenhauer (1788-1860), sobre a falta (no sentido de ausência) como propulsora do desejo que move os indivíduos em direção ao outro e em direção à vida. Em cena, personagens improvisam um texto enquanto preparam um jantar. Cada um sabe o texto que lhe foi entregue, mas não sabe o que o parceiro ao lado vai dizer. Tudo é um improviso, um tiro no escuro.

Tinha 16 anos quando assisti a essa peça, estava no colegial. Fernanda, uma das minhas melhores amigas, que mora atualmente em Colônia, na Alemanha, estava ao meu lado, e lembro de ter saído do teatro com a sensação de que aquilo não era uma surpresa – talvez para minha idade sim, mas olhando para o lugar e com as pessoas que vivia, essa situação se encaixava perfeitamente.

Improvisamos uns com os outros, na aula, no trabalho, com o porteiro, na padaria. Há improvisação em todos os lugares. De todos os níveis, graus e categorias. Em cena, o ato em si toca em temas como a geração submetida à ditadura militar (1964-85) e a família com seus padrões de relação, o que foge do cotidiano de 2015 e do que as pessoas trocam umas com as outras diariamente agora, hoje, ontem. “Não sabemos mais o que é real, o que é inventado. Não sabemos o que as pessoas querem e quando querem”, disse uma amiga. Nas palavras dela estamos à deriva em relacionamentos cada vez mais escassos, relações fragmentadas e sentimentos insípidos demais para fazer alguma diferença de um lado ou de outro.  Apenas esperamos sem o poder de troca, porque, afinal, não temos ideia do que é real ou ficção. Ao fechar os olhos e embarcar nesse novo modelo de relação estamos sujeitos a qualquer adversidade. E pode ficar preparado, ela vai chegar em breve - e com força...

Nós não vivemos em uma peça de teatro, não há ensaio e não há, principalmente, uma suspeita de como  o outro lado vai dizer e/ou agir.  Assim como no palco, em diálogos surpresas e cenas criadas a cada apresentação, a vida real vai se mostrando menos inflexível e mais amarga, deixando claro que é preciso saber onde se pisa, e o melhor de tudo, estar consciente de que mais cedo ou mais tarde outra sessão vai começar. E tudo que precisamos fazer é estarmos prontos. 

Como gostaria de rever essa peça com os olhos – e com a cabeça! – que tenho hoje, certamente tudo faria mais sentido. Quem estiver curioso pode ler o roteiro na íntegra neste link aqui.